O iminente colapso do Hospital Bom Jesus não é só mais uma crise hospitalar. É o sintoma de uma rede que opera no fio da navalha há anos em Ponta Grossa. Quando um hospital que responde por 80% da ortopedia do SUS ameaça fechar as portas com mais de seis milhões em dívidas, não estamos falando de gestão. Estamos falando de sobrevivência do sistema público na região.

O Bom Jesus virou espinha dorsal sem que ninguém planejasse. Virou referência de trauma porque os outros não deram conta. Virou metade da cardiologia cirúrgica da cidade porque só ele e a Santa Casa dividem os 21 leitos SUS existentes. Virou UTI de reforço quando o Estado precisou abrir leitos na pressa, em plena alta de síndromes respiratórias. Um hospital filantrópico carregando peso de hospital regional, mas com conta de hospital de bairro. A matemática não fechou. E agora a cidade paga o preço.

Se a porta fechar, a conta não some. Ela só muda de endereço. A Santa Casa, também filantrópica e também endividada, herdaria sozinha a cardiologia. Um espirro fora de hora e a especialidade para. Já a ortopedia, essa não tem pra onde ir. O Hospital Regional dos Campos Gerais foi inaugurado no afogadilho, como bem apontou a CPI dos Leitos. Hoje sofre com superlotação, terceirização excessiva e médicos que não cumprem jornada. Jogar 80% da demanda de trauma em cima de uma estrutura que já opera no limite é assinar atestado de óbito na porta do pronto-socorro. Na prática, fratura exposta em Ponta Grossa vira vaga de transferência pra Curitiba. Vira SAMU na estrada, vira risco, vira custo multiplicado.

Diante disso, o Estado tem fingido que R$ 379 mil a mais por mês resolvem. Esse foi o último aumento no contrato com o Bom Jesus, suficiente para admitir seis pacientes novos por dia na ortopedia. Seis. Numa cidade que depende do hospital para quase tudo. É enxugar gelo com toalha molhada. A outra saída que se desenha é mais dura, mas honesta: o arrendamento do hospital pela Secretaria Estadual de Saúde.

Arrendar significa o Estado assumir o que a filantropia não sustentou mais. Significa trocar o discurso da “parceria” pela responsabilidade direta da gestão. E isso tem preço. Pelos parâmetros de custeio do SUS, só os três leitos de UTI e dez de enfermaria abertos em caráter emergencial já consomem perto de duzentos e trinta mil reais por mês em diárias. Isso sem contar centro cirúrgico, pronto-socorro, material de síntese para ortopedia, que é sabidamente um dos setores mais caros da medicina. Uma operação integral do Bom Jesus, com porta aberta 24 horas para trauma e cirurgia cardíaca, dificilmente sai por menos de três milhões e meio a quatro milhões de reais mensais. A isso se soma a herança maldita: os seis milhões de dívida acumulada que teriam de ser negociados.

É caro. Mas é preciso colocar na balança o custo de não fazer. Cada paciente de ortopedia transferido para Curitiba via TFD custa diária, transporte, acompanhante e tempo. Tempo que, em trauma, significa sequela permanente ou morte. Cada infarto que não acha leito de hemodinâmica em Ponta Grossa é uma loteria com a vida. O colapso do Bom Jesus não economiza dinheiro público. Ele só transfere o gasto para uma rubrica mais trágica e menos controlável.

No fundo, a crise do Bom Jesus escancara uma decisão que Ponta Grossa adia há uma década: ou se banca um hospital regional de verdade, com custeio real e gestão profissional, ou se assume que a cidade não tem autonomia para cuidar dos seus. O modelo filantrópico, dependente de repasse atrasado e contrato subdimensionado, quebrou. Insistir nele é esperar a próxima ameaça de fechamento, com a corda cada vez mais esticada.

Ou se rompe a represa com ato consciente, assumindo o hospital e seu custo, ou ela rompe sozinha e leva junto a ortopedia, parte da cardiologia e a dignidade de quem depende do SUS.

Não é mais sobre se o Bom Jesus vai fechar. É sobre se Ponta Grossa vai decidir antes que decidam por ela.

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